Estaremos, certamente, de acordo que há poucos anos atrás era difícil prever que neste momento estivessemos confrontados com esta grave e preocupante situação política, económica e social.
Muitas das razões que estão na base desta crise têm sido amplamente abordadas por múltiplas vozes criticas, mas importa sublinhar que à crise política e económica se junta outra de extrema importância e que é uma marcada crise de valores e de princípios.
Para muitos dos actores políticos, a nobre actividade política deixou de revestir uma intervenção de cidadania virada para o bem comum e passou a pautar-se por uma clara atitude conspirativa de interesses pessoais e de grupos diversos que tem corroído os alicerces dos regimes democrático e constitucionail.
Por toda a Europa, as forças mais obscurantistas e totalitárias ganham maior peso político e eleitoral, e colocam uma pressão acrescida sobre as instituições democráticas dos respectivos países.
Para todos os que pensam que a Democracia constitui uma conquista adquirida e irreversível, importa lembrar que a roda da História não anda só para a frente.
Abundam os exemplos a nível das várias civilizações sobre enormes e brutais retrocessos que se traduziram por dramas violentos para os respectivos povos.
No nosso país, a crise tem constituído o pretexto para que um grupo de políticos chegados ao Poder tenha iniciado o desmantelamento acelerado de um amplo conjunto de direitos sociais e de políticas públicas que muitos de nós considerávamos também intocáveis, como resultado dos avanços civilizacionais que sedimentavam o bem comum e a melhoria progressiva das condições de vida da generalidade dos cidadãos.
A evolução dos acontecimentos tem mostrado que cada degrau da confrontação social que é subido pela política governamental existe logo outro que é definido, numa atitude política insaciável de destruição paranóide dos direitos sociais.
Torna-se também cada vez mais notório que esta política insaciável já nem sequer esconde o seu ódio à própria Constituição da República, considerada até incompatível com a situação de crise, e que a sua implementação aprofundada está a determinar uma progressiva e clara ruptura da coesão social.
Foi neste contexto de crescente preocupação que alguns de nós, que temos participado em múltiplas iniciativas de debate e de intervenção cidadã, considerámos que se tornava inadiável avançar para novas formas de acção que articulassem a reflexão e a consequente proposição.
É essencial que se efectue uma rigorosa caracterização das situações e se elaborem estruturados diagnósticos, mas este insubstituível trabalho tem de ser complementado com as correspondentes propostas de solução.
Não basta identificar os problemas e interpretar a realidade, porque aquilo que neste momento é urgente é contribuir para a transformação desta pesada e angustiante realidade que nos está a asfixiar de forma crescente.
A realização deste jantar na base da Declaração de Princípios previamente divulgada visa dar o passo decisivo para a criação de uma Associação de Reflexão para a Promoção do Estado Social.
A começar, desde logo, pelas presenças neste jantar, pretende-se constituir uma associação plural, onde a liberdade de pensamento e de opinião seja o seu parâmetro distintivo.
O momento presente, pelos perigos que encerra, exige a criação de pontes de diálogo, a conjugação de vontades, a discussão aberta e frontal das diferenças, mas sempre no pressuposto de que não existem detentores da verdade e que as plataformas de unidade e de convergência se fazem entre diferentes.
A criação deste espaço de reflexão e de proposição em torno do Estado Social não visa outra coisa senão isso mesmo, recusando qualquer perspectiva de intervenção que se confunda com concepções de índole partidária.
A ideia inicial é de que seja constituído um espaço muito leve no plano organizativo, sem taras aparelhísticas, sem cobrança de quotas, mas com a preocupação de trazer para a sua actividade cidadãos e cidadãs que possibilitem contributos qualificados nas várias áreas que concorrem para o Estado Social.
Por outro lado, não fizemos qualquer abordagem a pessoas que já estão envolvidas noutras estruturas de debate e de intervenção cívica, dado que entendemos que não pode haver qualquer tendência competitiva entre estas estruturas, colocando-se antes a preocupação permanente de se estabelecerem entre elas acções de conjugação de esforços e de potenciação das suas capacidades específicas.
A Declaração de Princípios é, pensamos nós, clara no seu enquadramento e naquilo que representa o papel insubstituível do Estado Social nas suas várias vertentes.
No processo de discussão do seu conteúdo foi sugerida por um dos intervenientes a referencia à necessidade de preservar a existência de um serviço público de rádio e televisão e passadas duas semanas éramos confrontados com a preocupante notícia da decisão do governo grego em liquidar esse serviço público nesse país.
Os tempos actuais não podem ser de expectativa e de conformismo, não podem ser de meras lamentações e de um esbracejar indignado, mas antes exigem uma intervenção enérgica e esclarecida na procura de denominadores comuns e de medidas transformadoras que invertam o actual curso dos acontecimentos.
A criação da associação visa proceder à elaboração de documentos fundamentados com propostas concretas que possam influenciar os vários segmentos da decisão política.
O Estado Social tem sido nas últimas décadas a nível do nosso país e dos países mais desenvolvidos da Europa o factor determinante da garantia da coesão social, do progresso civilizacional, da paz e da salvaguarda da própria Democracia.
Não há Democracia que resista às ofensivas totalitárias se não existir um Estado Social forte, moderno e transparente no seu funcionamento.
É muito importante que possamos fazer deste espaço um novo factor de combate à crise e a esta política desumana de empobrecimento aviltante.
Ao contrário do que diz o ditado popular, quem espera nunca alcança!!!
Muito obrigado pela vossa presença e que se faça luz com o nosso debate.
Mário Jorge Neves
Lisboa, 21.Junho.2013
Membro da A.D.E.S.


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