
Por: Cipriano Justo
Médico / Professor Universitário
Especialista em Saúde Pública
(membro da A.D.E.S.)
Uma greve dos médicos é sempre um acontecimento excepcional. Pelo seu elevado sentido de responsabilidade relativamente ao que está em causa, a saúde dos doentes, quando se chega a uma situação dessas é porque a tutela se tornou politicamente irresponsável. A greve anunciada para 10 e 11 de Maio pelos dois sindicatos do sector, FNAM e SIM, é disso um exemplo eloquente.
O que está em causa nesta greve são questões que dizem respeito não só a condições de trabalho mas também, como tem sido sempre hábito nestas circunstâncias, a exigência da melhoria da organização e funcionamento do SNS.
O sindicalismo médico nos combates que tem travado pela melhoria das condições sócio-profissionais da profissão nunca deixou de se bater também pela defesa dos serviços públicos de saúde. Por isso, não é admissível, por exemplo, que os médicos façam 18 horas de serviço de urgência sem risco para os doentes que estão a observar, como não é aceitável que não tenham o descanso compensatório que lhes é devido, como é justificado que lhes seja diminuída a idade da reforma, considerando que a profissão é de mão-de-obra intensiva e desgaste rápido. Estes são só três exemplos de uma lista mais exaustiva, que abrange também a melhoria do exercício da profissão para os médicos de família e de saúde pública, a abertura de concursos e a revisão da carreira médica.
O que está em causa nesta greve é considerar que sem médicos confortáveis no exercício da sua profissão, seja nos hospitais, seja nos centros de saúde do SNS, há primeira oportunidade vão engrossar o caudal dos que já optaram por um dos mais de cem hospitais privados, distribuídos de norte a sul, tanto no litoral como no interior.
Fazer de bom aluno nas reuniões de conselho de ministros no que respeita à gestão do orçamento do sector, quando há muito está com a corda ao pescoço, é desempenhar o papel de carrasco dos serviços públicos de saúde.
Defender a austeridade na prestação de cuidados de saúde mas andar sempre com o SNS na boca é o estádio supremo da hipocrisia política. Para isso há os governantes de direita. Mas não foi para isso que se assinaram os acordos de 10 de Novembro de 2015.
Cipriano Justo
Médico / Professor Universitário
Especialista em Saúde Pública
(membro da A.D.E.S.)
(publicado no Blog “ A Vaca Voadora” de 09.Mai.2017 - http://avacavoadora.pt/por-que-fazem-greve-os-medicos/

Sem comentários:
Enviar um comentário