Por: Daniel Oliveira
Em quase todos os jornais de ontem dizia-se que o governo iria propor um novo sistema de cálculo das pensões. Já não apenas fazendo-o depender da demografia, mas também da situação económica. As pensões passariam a estar indexadas ao crescimento económico. A situação económica piora, as pensões pioram. O senso comum manda concordar com este disparate. Assim é em casa. Há menos, gasta-se menos. Há mais, gasta-se mais. Só que a economia de um país não é a economia duma família. Porquê? Porque numa casa não compramos coisas uns aos outros. Se a minha filha gastar menos eu ficarei com mais. Se o leitor do Expresso gastar menos, eu ficarei com menos. Uma família com uma mercearia perceberá a diferença: se na família se gasta menos ficam com mais, se no bairro se gasta menos, ficam com menos. Como o Estado vive de impostos e contribuições, sofre imediatamente os efeitos de se gastar menos.
Manda o bom senso, que é diferente do senso comum, que os Estados tenham políticas económicas contracíclicas. Ou seja, que tentem, com as decisões que tomam, impedir ou minimizar os efeitos negativos de um determinado ciclo económico. Poupa-se quando se tem, gasta-se quando não se tem. Como se tornou um hábito, a proposta é a inversa: políticas procíclicas.Teria apenas um resultado: atirar a economia para cima quando ela está cima (o que também cria problemas) e atirar a economia para baixo quando ela está em baixo.
Entretanto, o governo já veio dizer que é tudo especulação. Que se está a criar "alarmismo injustificado". E sempre que este governo desmente um corte salarial ou um aumento de impostos eu agarro bem a carteira. Lembro-me,
porque sou um tipo com maus fígados mas boa memória, dos subsídios de natal que não iam ser tirados aos funcionários públicos (que disparate!), dos sacrifícios que já eram demais, dos impostos que não iam ser aumentados. E fico assim um bocadinho para o alarmado. E ainda mais alarmado quando o primeiro-ministro está a desmentir um briefing do próprio governo.
Diz-se agora que as vítimas dos cortes definitivos de dois mil milhões só saberão com o que contam depois das Europeias. Não me espanta. Afinal de contas, a enorme diferença entre o discurso pré e o pós-eleitoral é uma tradição nacional que não deve ser posta em causa a tradição. Só não me digam que os portugueses não precisam de saber o que os espera porque estas eleições são europeias. Todos os cortes que estão a ser feitos se relacionam diretamente com a política europeia. Já lá vai o tempo em que as pessoas julgavam que existia um debate europeu e um debate nacional. É tudo o mesmo debate. E, não abrindo o governo o jogo antes das eleições, devemos, por prudência, prever o sempre o pior. A omissão e a mentira não podem continuar a beneficiar o infrator.
Daniel Oliveira
Publicado no jornal “Expresso-OnLine” de 28.Março.2014


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